Estudo Psicológico do Fogo: Nasce um marco literário em Brejo Grande

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Com sua obra, Fernando Brejo faz história e se torna o primeiro escritor com um livro publicado na trajetória do município.

Luiz Fernando, ou Fernando Brejo, é um escritor de 37 anos natural de Brejo Grande. Nascido e criado na cidade, viveu a infância e a adolescência na rotina típica do interior.

Foi entre trabalhos braçais e vivências cotidianas que ele encontrou na música sua primeira fagulha artística.

Aos poucos, interessou-se pelo universo literário, adotando a leitura como um modo de vida nas horas vagas.

Aos 24 anos, mudou-se para Recife em busca de melhores oportunidades de trabalho. Mesmo mantendo a rotina de serviços manuais e o dia a dia árduo, Fernando nunca deixou de florescer seu lado artístico, dedicando-se cada vez mais ao estudo, à pesquisa e à sua vertente poética.

Ao longo dos nove anos longe de sua terra natal, continuou escrevendo e criando — ora para extravasar angústias e desejos, ora para construir o alicerce do que viria a ser uma grande conquista: tornar-se, de fato, um escritor com obra publicada.

Em entrevista exclusiva à equipe da Fucubre, Fernando fala sobre sua trajetória e os detalhes de sua obra.

De mãos calejadas pelo trabalho braçal à caneta que risca o papel com a urgência de quem tem muito a dizer. A trajetória de Fernando Brejo não é apenas uma jornada de Recife a Brejo Grande, mas um percurso de autodescoberta e resistência. Abaixo, ele nos abre as portas de seu ‘Estudo Psicológico do Fogo‘ e revela como a literatura se tornou o seu farol em meio à rotina árdua.

Já a respeito de sua obra e do impacto visual que o título carrega, Fernando nos explica a força por trás das palavras:

Qual foi a sua ideia por trás do título? Qual o significado?
“A ideia do título surgiu do título de um dos poemas que compõe o livro.
Escolhi esse título porque representa todos os demais poemas; não pela temática ou pela forma, mas por sua voracidade, a intensidade do que está sendo dito em cada poema.
Mas acho que isso em muitos casos tem a ver com a temática dos textos sim; são sempre temas devoradores, sempre coisas corrosivas, como amor, a fome, o desejo, coisas que nunca podem ser totalmente saciadas, assim como o fogo.”

– O que você buscou explorar na sua obra?
“Por se tratar de um livro com muitos poemas e temáticas variadas, não foi um livro planejado para ser como é. Os poemas vão surgindo no cotidiano, com temáticas e formas diferentes, ritmos diferentes também.
Quando se vê, tem-se uma quantidade razoável de textos prontos e, a partir daí, começa-se a organizar tudo.
É aí que o livro ganha conceito e forma, ganha materialidade.”

O Processo Criativo e as Reflexões.
Questionado sobre o que move sua caneta e as questões que estruturam seus versos, o escritor revela um olhar atento ao ser humano:

Quais são as principais questões e reflexões em seus poemas?
“Acredito que a espinha dorsal da minha poesia são as questões que estruturam a vida de qualquer ser humano em qualquer parte do mundo: o amor, a solidão, a busca pelo entendimento do mundo exterior e do mundo interior; a exposição de todos os fantasmas que nos assombram.”

A Trajetória Pessoal e as Inspirações
Quando o assunto toca no lado pessoal e no que despertou o seu lado artístico, Fernando faz um resgate emocionante de suas referências:

O que te levou a virar um escritor e o que te motiva a continuar escrevendo?
“Meu primeiro contato com literatura foi através da música.
Quando descobri a Legião Urbana, minha admiração por Renato Russo foi tamanha, que passei a pesquisar tudo sobre a vida dele: Ele é um gênio!
Nisso eu descobri que Renato lia muito, e que o talento dele para a escrita, não era meramente uma habilidade com a qual ele nasceu, mas algo adquirido através da leitura.
Então passei a ler os autores dos quais ele gostava; só aí veio de fato meu primeiro contato com a literatura.
Coincidentemente eu vivia, neste mesmo período, uma profunda desilusão amorosa. Essas duas coisas me tornaram Poeta.
Sobre o que me motiva a continuar escrevendo…
Eu acredito que a literatura pode transformar o mundo, por que a literatura transforma as pessoas, a literatura melhora as pessoas! Você não é filho de Machado de Assis, sua mãe não é Carolina Maria de Jesus.
Você não é amigo de Cruz de Sousa ou de Clarice Lispector, Drummond, Castro Alves. O que quero dizer é que, em nosso cotidiano, somos pessoas comuns, vivendo ao lado de pessoas comuns, seguindo determinadas tradições de vida impostas por nossos pais, pela religião à qual seguimos e etc…
Não temos contato, em nosso dia a dia, com praticamente ninguém que furou a bolha da cultura local.
Também ninguém nos fala sobre coisas básicas: o amor e suas implicações, sobre o ódio e suas implicações; ninguém nos ensina a nos compreender, ninguém nos fala dos sonhos, de como olhar para as coisas da natureza.
E nós vamos crescendo e tendo que lidar com todas essas coisas das quais não nos falaram quase nada.
Ninguém nos falou sobre o sexo, por exemplo.
Estas coisas, só temos contato com elas através das artes, principalmente da literatura.
Só conhecemos outras formas de viver, outros modos de ser, só temos contato com diferentes culturas e povos, através da literatura.
Isto nos permite ver o que em nosso mundo particular está certo e o que está errado, o que deve permanecer e o que deve ser esquecido. Por isso contínuo escrevendo.
Como um vagalume que, por um segundo, tenta tornar o mundo menos escuro.”

Quais foram e quais são as suas principais inspirações literárias?
“O que forma um bom escritor é ler bons escritores.
Existem alguns muito importantes em minha formação: Drummond, João Cabral, Fernando Pessoa, Cruz e Sousa, José Saramago e etc… Mas o cotidiano é a verdadeira fonte inesgotável de todas as expressões artísticas.”

Desafios, Raça e Classe
Por fim, ao falar sobre os obstáculos de ser um autor independente no interior de Sergipe, ele expõe as barreiras de cor e classe que marcam sua jornada:

– Para você, quais foram os maiores desafios que enfrentou?
“Os desafios são sempre muitos.
Sou um homem preto e pobre, não há como não ter desafios tendo em si essas duas condições. A pobreza é uma coisa muito íntima dos escritoress principalmente poetas.
Mas as rotinas de trabalho, sempre trabalhos manuais e pesados, representam obstáculos que tornam o ato de escrever quase impossível. A falta de convívio em um meio intelectual representa talvez obstáculo maior…
A solidão de escrever para si mesmo: sem público, sem crítica, sem ter quem avalie aquilo que você está fazendo.
Estes são os principais obstáculos que enfrentei.
No entanto estes fatores determinam se você é ou não um escritor.”

A jornada de Fernando Brejo, de Brejo Grande para as páginas da Editora Patuá, é mais do que uma conquista individual; é um portal que se abre para a literatura em nossa região. Ao ler “Estudo Psicológico do Fogo“, você não está apenas consumindo poesia de alta qualidade, mas também fortalecendo o ciclo da cultura local e garantindo que novas vozes, como a de Fernando, continuem encontrando fôlego para iluminar o mundo.

Prestigiar um artista da nossa terra é um ato de resistência e valorização da nossa própria identidade. Não deixe de conhecer e adquirir esta obra histórica.

SERVIÇO:
📙 Livro: Estudo Psicológico do Fogo
👤 Autor: Fernando Brejo
🏢 Editora: Patuá (Lançamento: Dezembro/2025)
🛒 Onde comprar: Disponível no site oficial da Editora Patuá e diretamente com o autor através do Instagram: @fernandobrejoescritor